Estudantes e educadores celebram Paulo Freire

Encontro debateu projeto de Lei que defende Paulo Freire como patrono da Educação Foto: Freireando Porto Alegre/Divulgação

Por Clarinha Glock  Extraclasse

Salas e pátio da Faculdade de Educação da Ufrgs (Faced) foram ocupadas no sábado, dia 19 de outubro, por estudantes, educadores e educadoras, trabalhadores e trabalhadoras, ativistas sociais, crianças e adultos, curiosos da comunidade e dos arredores para exercitar dois verbos que não estão nos dicionários tradicionais, mas que se ouviu em todos os cantos do encontro: “freireando” e “esperançar”. Embalada pelos acordes de jovens da Orquestra São Francisco da Lomba do Pinheiro, e pelos tambores do grupo de percussão do Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET) Paulo Freire, entre cirandas e abraços, conversas, relatórios, oficinas, sessões de cinema, exposições, lançamento de livros, foi lançada em Porto Alegre a Campanha Latino-Americana e Caribenha em Defesa do Legado de Paulo Freire organizada pelo Conselho de Educação Popular da América Latina e do Caribe (Ceaal). Ao final do encontro, foi feita a leitura pública do Manifesto da Campanha.

“Paulo Freire disse: não perder a esperança, no sentido do verbo “esperançar”, ou seja, continuar agindo a partir das práticas cotidianas, resistindo e acreditando que a história se dá num movimento de aspiral”, explicou o educador Pedro Pontual, presidente honorário do Ceaal. “Estamos num momento de retrocesso, mas desde que a gente continue atuando, seja na escola, na comunidade, no sindicato, onde estiver, promovendo processos de formação de consciência crítica, de organização, de formação de sujeitos, em algum momento essa aspiral voltará a um sentido democratizador. Não sabemos que momento será esse, mas ele voltará”, afirmou.

Nos últimos meses, se tornaram frequentes os ataques às ideias de Paulo Freire por políticos e governantes que o acusam de ser um doutrinador. Oscar Jara Holliday, sociólogo, educador popular e presidente do Ceaal, salientou que é justamente o contrário: a proposta freireana permite ter capacidade crítica diante de discursos da mídia e de setores dominantes que defendem uma saída individual e não solidária, onde o mercado é o único mediador das relações humanas. “Os setores mais poderosos atacam Paulo Freire porque não querem que a população fortaleça seu protagonismo para a transformação”, observou.

Paulo Freire significou uma mudança radical sobre as concepções de educação que existiam na América Latina desde os anos 1960. “Ele colocou outra forma de compreensão da educação como um processo de construção de sujeitos, com protagonismo e pensamento crítico para um agir transformador e coletivo, baseada no diálogo, e onde o peso principal não está nos conteúdos, mas na capacidade de aprendizagem que você vai gerar”, explicou Jara. Neste contexto, educadores e educadoras são também aprendizes. “Paulo Freire ajudou a compreender que a educação tem um fundamento ético, político e pedagógico. Não é só uma didática, técnica ou método: atinge todos os elementos da formação das pessoas”, acrescentou.

A campanha, que foi lançada também em Belém do Pará e no Piauí, vai se estender no final de outubro para São Paulo, bem como para outros países em que o Ceaal tem afiliadas. O objetivo é permitir conhecer melhor o pensamento de Freire e sua obra, e incentivar debates e ações para aprofundar as contribuições freireanas, adequando às necessidades do debate cultural do momento, de formação e atuação de forma coletiva, a partir de experiências e propostas de movimentos sociais, educadores e educadoras.

“Temos a tarefa de defender a democracia e o respeito às ideias, à liberdade de expressão e à capacidade de construir conhecimento. E de, mesmo nessa situação difícil, encontrar ações de resistência para continuar construindo espaços de expressão em outros níveis”, lembrou Jara. “Não é a primeira vez que os processos de educação popular são atacados, há uma história longa na América Latina, desde o início dos movimentos operários e de educação e construção de espaços culturais, quando nasceu o movimento sindical. Depois, nas ditaduras, pessoas que tinham uma perspectiva libertadora foram expulsas ou tiveram que sair de seus países, mas, ao mesmo tempo, espalharam por toda a América Latina ideias e experiências que se recriaram em outros contextos, como na Nicarágua, em El Salvador, no México. Somos seres históricos, nossa história está em movimento, não podemos pensar como se esse fosse o único e último momento. Temos que criar condições para que mude”, convidou Jara.

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